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Projeto de Pesquisa: "Brazil" a Geopolítica da Corrupção Bibliografia fichada |
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COMTE, Auguste.
Os Pensadores (Ed.Digital).
São Paulo: Abril Cultural, 1978.
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... a opinião popular permanecerá estranha a esses debates que, aos olhos dos bons espíritos, aumentando a instabilidade de todos os poderes, tendem especialmente a retardar essa indispensável transformação. Numa palavra, o povo está naturalmente disposto a desejar que a vã e tempestuosa discussão dos direitos seja enfim substituída por uma fecunda e salutar apreciação dos diversos deveres essenciais, quer gerais, quer especiais... A.COMTE: Discurso sobre o espírito positivo.
Pag. 16 O PENSAMENTO POSITIVO
O estado positivo caracteriza-se, segundo Comte, pela
subordinação da imaginação e da argumentação à observação.
Cada proposição enunciada de maneira positiva deve corresponder a um
fato, seja particular, seja universal. Isso não significa, porém,
que Comte defenda um empirismo puro, ou seja, a redução de todo
conhecimento à apreensão exclusiva de fatos isolados. A visão
positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos
(procedimento teológico ou metafísico) e torna-se pesquisa de suas
leis, entendidos como relações constantes entre fenômenos
observáveis. Quando procura conhecer fenômenos psicológicos, o
espírito positivo deve visar às relações imutáveis presentes neles —
como quando trata de fenômenos físicos, como o movimento ou a massa;
só assim conseguiria realmente explicá-los. Segundo Comte, a procura
de leis imutáveis ocorreu pela primeira vez na história quando os
antigos gregos criaram a astronomia matemática. Na época moderna, o
mesmo procedimento reaparece em Bacon (1561-1626), Galileu
(1564-1642) e René Descartes (1596-1650), os fundadores da filosofia
positiva, para Comte.
Pag. 18
Aspecto fundamental da sociologia comteana é a distinção entre a
estática e a dinâmica sociais. A primeira estudaria as condições
constantes da sociedade; a segunda investigaria as leis de seu
progressivo desenvolvimento. A idéia fundamental da estática é a
ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica social
subordina-se à estática, pois o progresso provém da ordem e
aperfeiçoa os elementos permanentes de qualquer sociedade: religião,
família, propriedade, linguagem, acordo entre poder espiritual e
temporal, etc.
Pag. 19
A
reforma das instituições — terceiro tema básico da filosofia de
Comte — tem seus fundamentos teóricos na sociologia que ele
concebeu. A sociologia conduziria à política, cumprindo-se, assim, o
desígnio que Comte sempre se propôs de
[pág.
XIII]
fazer da filosofia positivista
um instrumento para a reforma intelectual do homem e, através desta,
a reorganização de toda a sociedade. No seu modo de ver, a Revolução
Francesa destruiu as instituições sociais do homem europeu e
impunha-se, conseqüentemente, estabelecer uma nova ordem. A
Revolução fora necessária, pensava Comte, porque as antigas
instituições sociais e políticas eram ainda teológicas, não
correspondendo, portanto, ao estado de desenvolvimento das ciências
da época. A Revolução não ofereceu, porém, fundamentos para a
reorganização da sociedade, por ter sido negativa e metafísica em
seus pressupostos. A tarefa a ser cumprida deveria, portanto, ser a
instauração do espírito positivo- na organização das estruturas
sociais e políticas. Para isso, seria necessária uma nova elite
científico-industrial, capaz de formular os fundamentos positivos da
sociedade e desenvolver as atividades técnicas correspondentes a
cada uma das ciências, tornando-as bem comum. Pag. 20
Comte
foi, na verdade, um conservador e característicos dessa atitude são
os seus elogios á ordem católica e feudal da Idade Média. Dentro de
uma linha de revalorização do catolicismo, típica de sua época,
atacou o protestantismo,
[pág. XIV]
considerando-o uma religião
negativa e anárquica intelectualmente.
Em 1876, fundou-se a primeira sociedade positivista do Brasil, tendo à frente Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Benjamin Constant (1836-1891). No ano seguinte, os dois primeiros viajaram para Paris, onde conheceram Émile Littré e Pierre Laffite. Miguel Lemos decepcionou-se com “o vazio do littreísmo” e tornou-se adepto fervoroso da religião da humanidade, dirigida por Laffite. De volta ao Brasil, fundou a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, que constitui a origem do Apostolado Positivista do Brasil e da Igreja Positivista do Brasil, cuja finalidade era “formar crentes e modificar a opinião por meio de intervenções oportunas nos negócios públicos”. [pág. XVI] Pag. 24
DISCURSO PRELIMINAR SOBRE
O Pag.136
O
positivismo se compõe essencialmente duma filosofia e duma política,
necessariamente inseparáveis, uma constituindo a base, a outra a
meta dum mesmo sistema universal, onde inteligência e sociabilidade
se encontram intimamente combinados. Duma parte, a ciência social
não é somente a mais importante de todas, mas fornece sobretudo o
único elo, ao mesmo tempo lógico e científico, que de agora em
diante comporta o conjunto de nossas contemplações reais... Ora, a ciência final, ainda mais do que cada uma das ciências preliminares, não pode desenvolver seu verdadeiro caráter sem uma exata harmonia geral com a arte correspondente. Mas, por uma coincidência de nenhum modo fortuita, sua fundação teórica encontra logo imenso destino prático, a fim de presidir hoje toda a regeneração da Europa Ocidental. De outra parte, na medida em que o curso natural dos acontecimentos caracteriza a grande crise moderna, a reorganização política se apresenta cada vez mais como necessariamente impossível, sem a reconstrução prévia das opiniões e dos costumes. Uma sistematização real de todos os pensamentos humanos constitui pois nossa primeira necessidade social, igualmente quanto à ordem e ao progresso. A realização gradual desta ampla elaboração filosófica fará espontaneamente surgir, em todo o Ocidente, uma nova autoridade moral, cuja inevitável ascendência pag. 137
colocará a base direta da reorganização final, ligando as diversas
populações avançadas através da mesma educação geral, que fornecerá
para toda parte, para a vida pública como para a vida privada,
princípios fixos de julgamento e de conduta.
[pág. 97]
Desse
modo, os movimentos intelectual e de comoção social, cada vez mais
solidários, conduzem de agora em diante a elite da humanidade ao
advento decisivo dum verdadeiro poder espiritual, ao mesmo tempo
mais consistente e mais progressivo do que aquele esboçado
prematuramente, numa tentativa admirável, pela Idade Média.
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