ADORNO,
Theodor W.
Industria Cultural e Sociedade
São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002.
![]() |
|
Pag.05
A tese sociológica de que a perda de
apoio na religião objetiva, a dissolução dos últimos resíduos
pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização
deram lugar a um caos cultural é cotidianamente desmentida pelos fatos.
A cultura contemporânea a tudo
confere um ar de semelhança. Filmes, rádio e semanários constituem um sistema.
Cada setor se harmoniza em si e todos entre si. As manifestações estéticas,
mesmo a dos antagonistas políticos, celebram da mesma forma o elogio do ritmo do
aço. As sedes decorativas das administrações e das exposições industriais são
pouco diferentes nos países autoritários e nos outros. Os palácios colossais que
surgem por toda parte representam a pura racionalidade sem sentido dos grandes
cartéis internacionais a que já tendia a livre iniciativa desenfreada, que tem,
no entanto, os seus monumentos nos sombrios edifícios circundantes — de moradia
ou de negócios — das cidades desoladas. Por sua vez, as casas mais velhas em
torno ao centro de cimento armado têm o aspecto de
slums
(favelas), enquanto os novos Pg.06 ...O cinema e o rádio não têm mais necessidade de serem empacotados como arte. A verdade de que nada são além de negócios lhes serve de ideologia. Esta deverá legitimar o lixo que produzem de propósito. O cinema e o rádio se auto definem como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores-gerais tiram qualquer dúvida sobre a necessidade social de seus produtos. Os interessados adoram explicar a indústria cultural em termos tecnológicos. A participação de milhões em tal indústria imporia métodos de reprodução que, por seu turno, fazem com que inevitavelmente, em numerosos locais, necessidades iguais sejam satisfeitas com produtos estandardizados. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção difusa exigiria, por força das coisas, organização e planificação da parte dos detentores. Os clichês seriam causados pelas necessidades dos consumidores: por isso seriam aceitos sem oposição. Na realidade, é por causa desse círculo de manipulações e necessidades derivadas que a unidade do sistema torna-se cada vez mais impermeável. O que não se diz é que o ambiente em que a técnica adquire tanto poder sobre a sociedade encarna o próprio poder dos economicamente mais fortes sobre a mesma sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação, é o caráter repressivo da sociedade que se auto-aliena. Automóveis, bombas e filmes mantêm o todo até que seu elemento nivelador repercuta sobre a própria injustiça a que servia...
...A passagem do telefone ao rádio
dividiu de maneira justa as partes. Aquele, liberal, deixava ainda ao usuário a
condição de sujeito. Este, democrático, torna todos os ouvintes iguais ao
sujeitá-los, autoritariamente, aos idênticos programas das várias estações. Não
se desenvolveu qualquer sistema de réplica e as transmissões privadas são
mantidas na clandestinidade. Estas se limitam ao mundo excêntrico dos amadores,
que, ainda por cima, são organizados do alto. Qualquer traço de espontaneidade
do público no âmbito da rádio oficial é guiado e absorvido, em uma seleção de
tipo especial, por caçadores de talento, competições diante do microfone,
manifestações domesticadas de todo o gênero. Os talentos pertencem à indústria
muito antes que esta os apresente; ou não se adaptariam tão prontamente. A
constituição do público, que teoricamente e de fato favorece o sistema da
indústria cultural, faz parte do sistema e não o desculpa...
A dependência da mais poderosa sociedade
radiofônica em relação à indústria elétrica, ou a do cinema aos bancos, define a
esfera toda, cujos setores singulares são ainda, por sua vez, cointeressados e
economicamente interdependentes. Tudo está tão estreitamente ligado que a
concentração do espírito alcança um volume tal que lhe permite ultrapassar as
fronteiras das várias firmas comerciais e setores técnicos. A unidade sem
preconceitos da indústria cultural atesta a unidade em formação da política.
A televisão tende a uma síntese do rádio
e do cinema, retardada enquanto os interessados ainda não tenham negociado um
acordo satisfatório,
mas cujas possibilidades ilimitadas
prometem intensificar a tal ponto o empobrecimento dos materiais estéticos que a
identidade apenas ligeiramente mascarada de todos os produtos da indústria
cultural já amanhã poderá triunfar abertamente. Seria ironicamente a realização
do sonho wagneriano da "obra de arte total". O acordo entre palavra, música e
imagem realiza-se mais perfeitamente que no
Tristão,
porque os elementos sensíveis — que
protocolam sem pretensão a superfície da realidade social, são, na maioria dos
casos, produzidos pelo mesmo processo técnico de trabalho, exprimindo tanto a
sua unidade quanto o seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de trabalho integra
todos os elementos da produção, desde a trama do romance que já tem em mira o
filme até o mínimo efeito sonoro. É o triunfo do capital investido.
A vida no capitalismo tardio é um rito
permanente de iniciação. Todos devem mostrar que se identificam sem a mínima
resistência com os poderes aos quais estão submetidos. Isso se encontra na base
da síncope do jazz
que escarnece dos tropeços e, ao
mesmo tempo, os eleva à condição de norma. A voz de eunuco do
crooner
da rádio, o galante cortejador da
herdeira, que cai de
smoking na piscina, são
exemplos para os homens, que de
per se
devem se ajustar ao que impõe o sistema. Todos podem ser como a sociedade
onipotente, todos podem se tornar felizes, conquanto se entreguem sem reservas,
e renunciem à sua pretensão de felicidade. A
Pg.33
sociedade reconhece sua própria força na
debilidade deles e lhes cede uma parte. A passividade do indivíduo o qualifica
como elemento seguro. Assim o trágico é liquidado.
Pg.38 ...hoje as obras de arte como palavras de ordem política são oportunamente adaptadas pela indústria cultural, levadas a preços reduzidos a um público relutante, e o seu uso se torna acessível a todos como o uso dos parques. Mas a dissolução do seu autêntico caráter de mercadoria não significa que elas sejam custodiadas e salvas na vida de uma sociedade livre, mas sim que desaparece até a última garantia contra a sua degradação em bens culturais. A abolição do privilégio cultural por liquidação e venda a baixo preço não introduz as massas nos domínios já a elas anteriormente fechados, mas contribui, nas condições sociais atuais, a própria ruína da cultura, para o progresso da bárbara inconsistência. Quem no século passado, ou no início deste, gastava para ver um drama ou escutar um concerto, tributava ao espetáculo pelo menos tanto respeito quanto o dinheiro do ingresso... ... A arte ainda mantinha o burguês dentro de certos limites, à medida que era cara. Isso acabou. A sua proximidade absoluta, não mais mediada pelo dinheiro, para todos aqueles a quem é exibida, é o cume da alienação e aproxima uma à outra no signo da completa reificação. Na indústria cultural, desaparece tanto a crítica como o respeito: àquela sucede a expertise mecânica, a este, o culto efêmero da celebridade. Para os consumidores não existe mais nada que seja caro. Estes, entretanto, intuem que quanto mais se lhes regala certa coisa, tanto menor se toma o seu preço. A dupla desconfiança para com a cultura tradicional como ideologia se mistura à desconfiança quanto à cultura industrializada como fraude. Reduzidas a pura homenagem, as obras de arte pervertidas e corruptas são secretamente empurradas pelos beneficiados para o meio dos trastes, com os quais são assimiladas. Os consumidores podem se alegrar que haja tanta coisa para ver e ouvir. Praticamente pode-se ter de tudo. Os screens e os vaudevilles no cinema, as disputas dos músicos, os cadernos gratuitos, as gratificações e os artigos de presente distribuídos aos ouvintes de determinados programas, não são meros acessórios, mas o prolongamento do que acontece com os próprios produtos culturais. A sinfonia toma-se um prêmio para a audição radiofônica em Pg.39
geral, e se a
técnica pudesse fazer aquilo que quer, o filme já seria fornecido a domicílio
conforme o exemplo do rádio.
(14)
Este tende ao
commercial system.
A televisão já mostra o caminho de uma
evolução que poderá colocar os irmãos Warner na posição, para eles certamente
não desejável, de guardiões e defensores da cultura tradicional.
Mas a prática de prêmios já se
depositou no comportamento dos consumidores. Enquanto a cultura se apresenta
como homenagem, cuja utilidade privada e social permanece, ademais, fora de
questão, a sua recepção se torna uma percepção de chances. Os ouvintes se
aglomeram com medo de perder alguma coisa. O que seja esta coisa não se sabe,
mas, de qualquer forma, há sempre uma probabilidade. Mas o fascismo espera
reorganizar os recebedores de dons da indústria cultural no seu séquito regular
e forçado.
A cultura e uma mercadoria paradoxal. É de tal modo sujeita à lei
da troca que não é nem mesmo trocável; resolve-se tão cegamente no uso que
não é mais possível utilizá-la. Funde-se por isso com a propaganda, que se faz
tanto mais onipotente quanto mais parece absurda, onde a concorrência é apenas
aparente. Os motivos, no fundo, são econômicos. É evidente que se poderia viver
sem a indústria cultural, pois já é enorme a saciedade e a apatia que ela gera
entre os consumidores. Por si mesma ela pode bem pouco contra esse perigo. A
publicidade é o seu elixir da vida. Mas, já que o seu produto reduz
continuamente o prazer que promete como mercadoria à própria indústria, por ser
simples promessa, finda por coincidir com a propaganda, de que necessita para
compensar a sua não fruibilidade. Na sociedade competitiva, a propaganda
preenchia a função social de orientar o comprador no mercado, facilitava a
escolha e ajudava o fornecedor mais hábil, contudo até agora desconhecido, a
fazer com que a sua mercadoria chegasse aos interessados...
... Agora que o livre mercado chega ao
fim, entrincheira-se na propaganda o domínio do sistema. Ela reforça o vínculo
que liga os consumidores às grandes firmas. Só quem pode rapidamente pagar as
taxas exorbitantes cobradas pelas agências publicitárias, e, em primeiro lugar,
pelo próprio rádio, ou seja, quem já faz parte do sistema, ou é expressamente
admitido, tem condições de entrar como vendedor no pseudo mercado...
Pg.39
Pg.40 Pg.41 ... Técnica e economicamente, propaganda e indústria cultural mostram-se fundidas. Numa e noutra a mesma coisa aparece em lugares inumeráveis, e a repetição mecânica do mesmo produto cultural já é a repetição do mesmo slogan da propaganda. Numa e noutra, sob o imperativo da eficiência, a técnica se toma psicotécnica, técnica do manejo dos homens. Numa e noutra valem as formas do surpreendente e todavia familiar, do leve e contudo incisivo, do especializado e entretanto simples; trata-se sempre de subjuga!' o cliente, representado como distraído ou relutante... ... A desmistificação da linguagem, como elemento de todo processo iluminista, inverte-se em magia. Reciprocamente distintos e indissolúveis, palavra e conteúdo eram unidos entre si. Conceitos como melancolia, história e, inclusive, "a vida" eram conhecidos nos termos que os representavam e custodiavam. A sua forma os constituía e, ao mesmo tempo, os reproduzia. A nítida separação que declara casual o teor da palavra e arbitrária a coordenação como objeto, liquida a confusão supersticiosa entre palavra e coisa. Aquilo que em uma sucessão estabelecida de letras transcende a correlação ao evento é banido como obscuro e como metafísica verbal...
... A cegueira e o mutismo dos dados a
que o positivismo reduz o mundo atingem mesmo a linguagem que se limita ao
registro daqueles dados. Assim os próprios termos se tomam impenetráveis,
adquirem um poder de choque, uma força de adesão e de repulsão que os torna
parecidos com seu extremo oposto, as fórmulas mágicas...
... Se hoje os fascistas alemães lançam
pelos alto-falantes a palavra "intolerável", amanhã todo o povo dirá também
"intolerável". Segundo o mesmo esquema, as nações contra as quais era
empreendida a guerra relâmpago alemã a acolheram na sua gíria. A repetição
universal dos termos adotados pelas várias determinações torna estas últimas de
qualquer modo familiares, como nos tempos do mercado livre, o nome de um produto
em todas as bocas promovia a sua vendagem. A repetição cega e a rápida expansão
de palavras estabelecidas une a publicidade à palavra de ordem totalitária. A
camada de experiência que fazia das palavras as palavras dos homens que as
pronunciavam está inteiramente achatada, e mediante a rápida assimilação, a
língua assume uma frieza que, até então, só caracterizava as colunas
publicitárias e as páginas de anúncio dos jornais. Infinitas pessoas usam
palavras e expressões que ou nem mesmo mais compreendem, ou que só empregam
segundo o seu valor behaviorista de...
O crítico da cultura não está satisfeito com a cultura, mas deve unicamente a ela esse seu mal-estar. Ele fala como se fosse o representante de uma natureza imaculada ou de um estágio histórico superior, mas é necessariamente da mesma essência daquilo que pensa ter a seus pés. A insuficiência do sujeito que pretende, em sua contingência e limitação, julgar a violência do existente — uma insuficiência tantas vezes denunciada por Hegel, com vistas a uma apologia do status quo — torna-se insuportável quando o próprio sujeito é mediado até a sua composição mais íntima pelo conceito ao qual se contrapõe como se fosse independente e soberano.
... O crítico da cultura mal consegue
evitar a insinuação de que possui a cultura que diz faltar. Sua vaidade vem em
socorro da vaidade da cultura: mesmo no gesto acusatório, o crítico mantém a
idéia de cultura firmemente isolada, inquestionada e dogmática. Ele desloca o
ataque. Onde há desespero e incomensurável sofrimento, o crítico da cultura vê
apenas algo de espiritual, o estado da consciência humana, a decadência da
norma...
|